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    Entrevista com o Prof. Werner Bidlingmaier


O Prof. Bidlingmaier, coordenador do curso de resíduos sólidos da Universidade Bauhaus, em Weimar, Alemanha, fez em agosto de 2004 uma entrevista com Bruno do Nascimento, diretor da Casa da Cidadania, para o jornal Diário de Petrópolis.  

Prof. Klaus Fricke e Werner Bidlingmaier no Dia Mundial de Meio Ambiente, em Berlim, a convite do presidente da Alemanha.

Bauhaus é o nome curto para a Staatliches Bauhaus (literalmente, casa estatal de construção ou arquitetura), uma escola de arte e arquitetura, fundada por Walter Gropius, que existiu durante o período de 1919 a 1933, em Weimar, na Alemanha.

A Bauhaus foi uma das maiores e mais originais expressões do que é chamado Modernismo na arquitetura, sendo uma das primeiras escolas de design do mundo.


Gropius pressentiu que começava um novo período da história com o fim da Primeira Guerra Mundial, e decidiu que a partir daí dever-se-ia criar um novo estilo arquitetônico que refletisse essa nova época. Seu estilo tanto na arquitetura quanto na criação de bens de consumo primava pela funcionalidade, custo reduzido e orientação para a produção em massa. Por essas razões Gropius queria unir novamente os campos da arte e artesanato, criando produtos altamente funcionais e com atributos artísticos.


A Bauhaus havia sido grandemente subsidiada pela República de Weimar, que esperava construir casas populares a baixo custo para a população. Após uma mudança nos quadros do governo, em 1925 a escola mudou-se para Dessau. Hoje, em seu local em Weimar funciona a Universidade Bauhaus.

A Universidade Bauhaus, assim como a escola do Modernismo continua influenciando as transformações do cotidiano das pessoas, descobrindo novas técnicas, incentivando talentos e estabelecendo contatos globais.

Hoje a Universidade Bauhaus mantém um departamento voltado especificamente para o Tratamento dos Resíduos Sólidos, aplicando as suas tecnologias em diferentes países, incluindo o Brasil. O petropolitano Bruno do Nascimento que foi bolsista na Universidade Bauhaus, através da Carl Duisberg Gesellschaft e.V (InWent) conversou em entrevista especial para o Diário de Petrópolis com o Prof. Werner Bidlingmaier, coordenador do Curso de Tratamento de Resíduos Sólidos e um dos maiores especialistas mundiais na questão.

Diário de Petrópolis - Desde quando e onde começou o seu trabalho relacionado ao tratamento de resíduos sólidos? Qual o trabalho que o Senhor desenvolve hoje na Universidade Bauhaus, em Weimar?

Prof. Bidlingmaier - Há mais de 30 anos venho trabalhando com o tratamento de resíduos sólidos, tendo começado numa época em que esse tema se constituía numa área técnica ainda muito insipiente. Comecei na Universidade de Stuttgart, com o Professor Tabasaran, Doutor em Engenharia e pioneiro no tratamento de resíduos na Alemanha. Atualmente sou coordenador do curso de Tratamento de Resíduos Sólidos na Universidade Bauhaus, em Weimar, Alemanha e, paralelamente à docência, me ocupo, sobretudo, com as questões relacionadas com o processamento biológico do lixo, especificamente, compostagem e fermentação, embora o tema seja muito mais abrangente e complexo.

Diário de Petrópolis - Na sua opinião o Mundo mudou a sua postura em relação à preservação ambiental nos últimos anos? O senhor sente uma nova consciência das pessoas em relação ao meio-ambiente?

Prof. Bidlingmaier - Sim, a consciência das pessoas nos últimos anos mudou muito. Entretanto, o desenvolvimento desta nova consciência ainda é muito lento em relação à destruição que ocorre no mundo. Isto se deve, de um lado, à pobreza que impede o acesso das pessoas a um mínimo de instrução e inviabiliza reflexões que vão além da luta pela subsistência e, do outro, à atitude dos seres humanos de só tomar as devidas providências, quando a degradação ambiental afetar diretamente suas vidas. É necessário, portanto, que mais e mais pessoas se conscientizem acerca dos perigos da contaminação dos mananciais, dos lençóis freáticos e da atmosfera, principalmente, em decorrência do lixo.

Diário de Petrópolis - Qual a importância das questões sociais na preservação do meio ambiente? A Agenda 21 está no caminho certo?

Prof. Bidlingmaier - Naturalmente as questões sociais desempenham importante papel na preservação ambiental. Quanto maior o poder aquisitivo de uma sociedade, maior é a possibilidade de investimentos na área da preservação ambiental. Nos países pobres, com outros tipos de problemas, a prioridade é a preservação da existência humana. Atuar socialmente também implica a necessária incorporação da dimensão econômica à preservação ambiental, através de tecnologias apropriadas e da inclusão de todos os grupos sociais no processo.

Como a Agenda 21 leva em conta exatamente esses aspectos - dimensão econômica, social e ambiental -, considero-a como um passo fundamental na direção do desenvolvimento sustentável. Porém, o documento por si só, não é capaz de induzir mudanças. Para tal, é necessário que a população tenha plena compreensão do que seja a Agenda 21 e se engaje na consecução de seus objetivos.

Diário de Petrópolis - O que é o Knoten Weimar?

Prof. Bidlingmaier - O Knoten Weimar é um Instituto que funciona na Universidade Bauhaus (podendo ser comparado a COPPETEC, Fundação Coordenação de Projetos, Pesquisas e Estudos Tecnológicos, ligada a COPPE/UFRJ). Mantém um forte vínculo com a Universidade, mas é uma personalidade jurídica autônoma. Em síntese, é uma empresa que possibilita a transferência e a incorporação de know-how mais avançados, do meio acadêmico ao meio empresarial. Além disso, a Universidade tem o maior interesse na transformação de conhecimentos em inovações tecnológicas, o mais rápido possível. O Knoten Weimar funciona como elo de ligação entre a Universidade Bauhaus e as pequenas e médias empresas, que, na Alemanha, representam o setor econômico mais inovador e flexível.

Portanto, para estas empresas é muito importante encontrar bons e confiáveis parceiros na Alemanha e em outros países. Parceiros estes, que além de capazes de promover negócios, disponham de conhecimentos sólidos dos temas específicos, que no nosso caso, são os resíduos.

Geralmente, as empresas de pequeno e médio porte não conseguem sozinhas coordenar projetos de maior envergadura, dependendo, portanto, da cooperação de outros parceiros locais. É a qualidade dos parceiros que, em última instância, define o sucesso ou o fracasso do projeto. Desta forma, o Knoten Weimar tem papel ativo na estratégia de implementação das redes locais. (Aliás, Knoten, em português, significa nó, ou seja, metaforicamente é em Weimar que se dá o nó de amarração nas redes locais, dando sustentação e segurança ao projeto).

O segundo objetivo do Knoten Weimar está relacionado à capacitação e atualização técnica. Do nosso ponto de vista, a forma mais eficaz de se resolver os problemas locais é o compartilhamento dos conhecimentos entre os agentes.

A simples importação de know-how, sem o devido enraizamento de tecnologias nos países onde foram implementadas, não é sustentável. Como conseqüência, foi criado um sistema de módulos de formação/capacitação, oferecido de modo "stricto sensu" ou "lato sensu" (via internet), especialmente destinado às autoridades municipais e gerentes operacionais (de usinas de reciclagem de lixo). Até o presente momento, já ministramos cursos na Hungria, Camboja e China.

Diário de Petrópolis - Em quais países o Knoten Weimar atua? Nestes países existe reciclagem?

Prof. Bidlingmaier - O Knoten Weimar é bem ativo no contexto mundial, até porque globalmente os problemas são bem parecidos. Mas existem três regiões onde a cooperação entre os parceiros é mais intensa. Além da Europa, há projetos implantados no sudeste asiático, na África do Sul, bem como na América Central e América do Sul. O Instituto Knoten Weimar, já atuou no Brasil na introdução de técnicas de tratamento mecânico e biológico dos resíduos, estando atualmente envolvido com diferentes projetos educacionais.

Reciclagem existe em toda parte, basta pensar nas inúmeras pessoas que freqüentam os aterros sanitários selecionando materiais, na expectativa de encontrar algo valioso desperdiçado em meio ao lixo. Do ponto de vista do gerenciamento do lixo, a reciclagem só tem sentido se forem devidamente contemplados os aspectos econômicos, ecológicos e sociais, nos moldes preconizados na agenda 21.

Existem bons exemplos mundiais que mostram a viabilidade da reciclagem, adaptada às necessidades de cada região ou país. Isso, no entanto, pressupõe tempo e o engajamento das entidades locais, como por exemplo, as Organizações Não Governamentais (ONGs).

Diário de Petrópolis - O Senhor conhece o Brasil, já trabalhou alguma vez aqui?

Prof. Bidlingmaier - Eu pessoalmente conheço pouco o Brasil, já estive algumas vezes, mas muito rapidamente. Muito embora, o Knoten Weimar tenha um representante responsável para o Brasil, o Prof. Klaus Fricke. Ele é professor de tratamento de Resíduos Sólidos na Universidade de Braunschweig, outro pólo do Knoten Weimar na Alemanha. Ele esteve por várias vezes no Brasil, e em diversos países sul americanos. Através dele, eu me mantenho bem informado sobre a situação no Brasil.

Diário de Petrópolis - Podem ser feitas comparações entre o tratamento dos resíduos sólidos do Brasil e da Alemanha?

Prof. Bidlingmaier - Existe um certo paralelo no tratamento dos resíduos sólidos, mas existem também muitas diferenças entre ambos os países, isto se eu pensar apenas nas dimensões e condições climáticas. Contudo, a quantidade de lixo nas grandes cidades permite comparações e, em ambos os casos, no Brasil ou na Alemanha, o lixo precisa ser coletado e transportado, da forma mais barata e rápida possível. Por outro lado, o Brasil tem uma superfície muito maior, o que possibilita outras abordagens do lixo.

Diário de Petrópolis - Porque a reciclagem é tão importante?

Prof. Bidlingmaier - Ao longo de toda existência os seres humanos consomem e vivem, assim produzem o lixo, isto é inevitável. Assim a nossa tarefa é minimizar a quantidade de lixo e aproveitar, ao máximo, as parcelas restantes através da reciclagem. Reciclar significa, reconduzir ao ciclo de produção um material, economizando os valiosos recursos naturais empregados na sua fabricação. Recursos naturais, que se sabe hoje são limitados no Mundo. Com isso, entra-se em outros aspectos importantes, como a redução da superfície dos aterros sanitários, significando também a redução das emissões de gases poluentes para a atmosfera e, se o sistema for bem organizado, gerando novas oportunidades de emprego.

Para a Alemanha é de vital importância poupar ao máximo os recursos naturais minerais, visto que o país não dispõe de significativas reservas.

Diário de Petrópolis - Qual o percentual de reciclagem hoje na Alemanha?

Prof. Bidlingmaier - Isto não é tão fácil de ser respondido. Os percentuais variam de acordo com as classes de materiais: em segmentos individuais, como as baterias, reciclamos 66%, embalagens 77%, papéis gráficos 83%. No cenário mundial, comparativamente, o índice de materiais reciclados na Alemanha encontra-se entre os mais elevados.

Segundo a legislação alemã, a partir de 2005, praticamente todo o lixo deverá ser reaproveitado, seja na forma de reciclagem ou através da incineração. Isso é um enorme desafio, que exigirá o uso de múltiplas tecnologias.

Diário de Petrópolis - Existem novas tecnologias para a reciclagem?

Prof. Bidlingmaier - Muitas novidades tem sido desenvolvidas, mas as questões técnicas não representam o problema em si. Na Alemanha, cada vez mais se reduz o emprego de pessoal, pelo aumento da tecnologia. Como conseqüência, muitas destas tecnologias não são aplicáveis em outros países. Freqüentemente, em alguns países, a melhor solução é o emprego dos recursos humanos disponíveis, isto é a utilização de tecnologias de uso intensivo de mão-de-obra, em detrimento de tecnologias de uso intensivo de capital.

Entretanto, o mais importante para a reciclagem é a existência de um mercado de compra e venda para os materiais. Existindo uma demanda estável para o vidro, por exemplo, automaticamente irão surgir empresas e pessoas que se especializarão na seleção do lixo, tornando essa atividade lucrativa.

Diário de Petrópolis - O que o Senhor pensa a respeito dos Aterros? Ainda são necessários ou já são relíquias do passado?

Prof. Bidlingmaier - Um aterro sanitário, bem constituído, garante, ainda hoje, um armazenamento seguro do lixo. Os aterros sanitários são muitas vezes bem mais econômicos do que, por exemplo, a incineração dos materiais.

Porém, em muitos países o desrespeito às questões ambientais coloca as populações circunvizinhas aos aterros em condição de perigo, pois podem resultar em diversas emissões de poluentes do aterro (chorume e gases tóxicos, como o metano). Estas emissões podem ser minimizadas por medidas relativamente simples e de baixo custo, sobretudo, se essas medidas forem tomadas no momento de implantação de um Aterro Sanitário.

Diário de Petrópolis - Nesta época de globalização quais as possibilidades para a cooperação internacional no setor de reciclagem?

Prof. Bidlingmaier - Eu, particularmente, vejo que existem muitas oportunidades para o desenvolvimento das cooperações internacionais, sobretudo, no âmbito da educação/formação. Na atualidade, numerosas são as tecnologias e know-how disponíveis para o setor da reciclagem, passíveis de serem utilizadas na solução de problemas específicos de determinados países. Porém, somente através da formação /educação é possível encontrar soluções economicamente viáveis, ecologicamente sustentáveis e socialmente justas.

A educação/formação de seus quadros é também condição básica para as empresas locais e municipalidades que pretendem cooperar com parceiros internacionais. A meu ver, a mera importação de tecnologias já prontas, não pode ser considerada cooperação e conduz, freqüentemente, a resultados decepcionantes.

A Universidade Bauhaus, bem como o instituto Knoten Weimar procuram disponibilizar esses conhecimentos de forma compacta, objetivando oferecer aos participantes de seus cursos, uma sólida visão geral sobre as tecnologias mais importantes nessa área, de modo a torná-los capazes de tomar as decisões certas, nos seus respectivos países ou regiões.


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